Era uma
vez um sonho de ser cantor...
Chamava-se António Variações mas ficará conhecido na história da música portuguesa como António Barbeiro de profissão e músico por devoção, consegue em pouco mais de um ano transformar-se num caso único de popularidade.
Na sua discografia contam-se apenas um máxi-single e dois álbuns, editados entre 1982 e 1984. A morte prematura aos 39 anos - em 1984 - virá pôr termo à meteórica carreira de Variações, mas a sua obra permanece - e permanecerá decerto - bem viva na memória Não apenas na dos seus admiradores, mas também na dos seus críticos mais ferozes. Porque António gerou paixões e ódios, mas nunca a indiferença .
António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasce
em Fiscal, pequena aldeia do concelho de Amares, Braga a 3 de
Dezembro de 1944. O quinto dos dez filhos de Deolinda de Jesus e
Jaime Ribeiro, António faz os seus estudos na escola local,
ajudando no resto do tempo os pais no campo. Mas a paixão pela música
demonstrada desde tenra idade fá-lo-á esquecer muitas vezes os
trabalhos da lavoura em favor das romarias e folclore locais.
Aos 11 anos, terminada a instrução primária, experimenta o primeiro ofício em Caldelas. " Ia fazer quinquilharias, mas passado pouco tempo desistiu ", contará a mãe já em 1988, à Imprensa. Mal completa 12 anos abandona a terra- natal rumo a Lisboa. Vem para ser marçano, mas acabará por trabalhar num escritório. A tropa fá-la em Angola, mas sem antes pedir à mãe que lhe acenda uma vela a Sto António para protecção. Regressa são e salvo. Mas logo volta a partir, desta feita para Londres, onde permanece um ano a lavar pratos num colégio.
Em 1976 regressa. De novo por pouco tempo. O próximo destino será Amesterdão, onde fica mais um ano e aprende o ofício de cabeleireiro.
Já em Lisboa, dedica-se de dia ao ofício, e á noite à sua paixão pela música, dando espectáculos com um grupo de músicos intitulado " Variações ". E começa então a ser notado pelo seu visual excêntrico e personalizado, com base nas cores e formas originais e em alguns elementos de adorno, como por exemplo os brincos.
Em 1978 apresenta uma maquete com algumas músicas à editora Valentim de Carvalho e nesse ano assina contrato. Mas terá de esperar quatro anos para poder gravar, porque entretanto Mário Martins e Nuno Rodrigues insistem para que grave, respectivamente folclore ou pop.
Os contactos com profissionais do mundo da música, seus clientes na barbearia, abrir-lhe-ão, entretanto as portas da notoriedade.
Em Fevereiro de 1981 surge pela primeira vez na televisão, no "Passeio dos Alegres" de Júlio Isidro, que o convidará para algumas emissões da "Febre de Sábado da Manhã" na Rádio Comercial.
Em Julho de 1982, já sob o nome António Variações, edita o seu primeiro single, um duplo lado A com "Povo Que Lavas No Rio" - imortalizado por Amália Rodrigues - e "Estou Além", um inédito de sua autoria. Um ano depois sairá o primeiro LP- "Anjo Da Guarda "- que o transformará numa estrela popular à escala nacional.
Depois de inúmeros concertos na época estival, sobretudo em festas e romarias de aldeias e outras pequenas localidades, volta a entrar em estúdio. Entre 6 e 25 de Fevereiro de 1984 grava o segundo e último LP; "Dar E Receber".
Em Abril aparece pela última vez em público no programa televisivo "A Festa Continua" de Júlio Isidro. Será a única interpretação no pequeno ecrã das faixas do novo disco. Quando " Dar E Receber " é editado, semanas mais tarde, já António Variações se encontra internado no Hospital Pulido Valente devido a um problema brônquico-asmático. É já no hospital que ouvirá pela primeira vez na rádio as músicas de promoção do disco.
Debilitado pela doença que se agrava vertiginosamente, é transferido a pedido da família para a Clínica da Cruz Vermelha, onde virá a falecer a 13 de Junho.
Porquê Variações?
Variações é o nome do grupo de músicos que acompanha António Rodrigues Ribeiro no início de carreira, ainda na noite lisboeta.
Quando em 1981 se estreia na televisão, António apresentar-se-á com essa banda sob a designação "António e Variações". Um ano mais tarde, quando edita o primeiro single, o cantor surge já como António Variações.
"Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos". (António Variações a "O País" - 14.04.84)
" O António Variações gosta de pôr as pessoas a cantar, gostava de não ser só um espectador. E tem vontade de ficar na História, nem que seja na história de uma parede de casa-de-banho". (António Variações ao "Sete" - 30-03.83)
Os discos do Variações
O percurso discográfico de António Variações inicia-se em 1982, quatro anos após ter assinado o contrato com a editora. Lança então um single - duplo lado A - com "Povo Que Lavas No Rio" - clássico de Pedro Homem de Mello e Joaquim Campos, imortalizado pela voz de Amália Rodrigues- e um inédito de sua autoria, "Estou Além".
A nova roupagem que dá ao fado de Amália causa polémica, sendo mesmo acusado de sacrilégio. Mas pouco tempo depois será visto como o primeiro passo em direccção ao sucesso e o disco foi compreendido como uma sentida amostra da sua religiosa devoção à fadista. Passado um ano, edita "Anjo Da Guarda ", o primeiro LP e dedica-o a Amália . O álbum resulta de um ano muito agitado de gravações. As sessões de estúdio têm no seu início a colaboração de Vitor Rua e Tóli César Machado, dos GNR, como arranjadores e produtores, mas logo são interrompidas pelos desentendimentos que levam à saída de Vitor Rua do grupo. Serão retomadas mais tarde sob a supervisão de José Moz Carrapa. O disco acabará assim por resultar dos cinco temas com Tóli e Rua a que se juntam "Estou Além" e os quatro temas orientados por Carrapa.
O álbum recebe os mais efusivos elogios da Imprensa que realça a inovação e originalidade do som, assim como a postura de Variações bem notória na fotografia de perfil na capa junto a um busto simbolizando Amália. A rádio e o público acabarão por eleger o cantor como um dos maiores nomes do momento. "O Corpo É Que Paga" e "É P´ra Amanhã" estarão entre os temas mais tocados do ano, sendo o último editado como single no Verão.
Em 1984 , Variações grava o seu segundo e último álbum e dedica-o aos pais, à equipa de trabalho do disco, a todos os que gostassem de tocar com ele, aos vigaristas e a Fernando Pessoa. Chama-se "Dar E Receber " e contará com a participação de Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade - à época elementos dos Heróis do Mar - como responsáveis pela produção e direcção musical. Os cinco elementos dos Heróis do Mar constituirão a banda de estúdio que participa nas gravações.
E mais uma vez a estética está presente na capa. Desta feita, Variações surge de corpo inteiro envergando um maillot masculino e de cabelo roxo. Olha um espelho, no meio dumas árvores.
" Dar E Receber " é editado em Maio e é recebido entusiasticamente pelo público e crítica, na altura abalados com o preocupante estado de saúde do cantor.
Esta última dádiva de Variações irá ter em "Canção de Engate" um dos seus maiores sucessos.
O adeus do Variações
"Tenho pena de morrer, mas não medo. Tudo o que acaba me deprime. Mais pelo fim do que pelo acto em si."- palavras de António Variações à Imprensa, poucas semanas antes de morrer.
Em 1984, a SIDA era ainda considerada como "praga dos homossexuais" e raros seriam os casos diagnosticados em Portugal.
Em Junho, a comunicação social anunciava o grave estado de saúde de António Variações. Logo se levantam as primeiras suspeitas em relação ao problema brônquico- asmático que levara ao seu internamento no hospital Pulido Valente no dia 18 de Maio e à sua transferência para a Clínica da Cruz Vermelha. "Aquele a mim nunca me enganou, está mesmo a ver-se que está com isso", podia ouvir-se um pouco por toda a cidade. Mas nem todos viraram as costas a António Variações. Na na clínica, recebia a visita dos Heróis do Mar, companheiros do último disco editado já durante a sua hospitalização. Foi mesmo no hospital que ouviu uma das faixas na rádio, pela primeira e última vez.
No mês em esteve internado, António Variações emagreceu vinte quilos. Segundo palavras da irmã, mantivera-se lúcido sendo a tosse o que lhe provocava maior sofrimento, fazendo-o mesmo pedir para morrer.
E na madrugada de 13 de Junho, a morte levou o criador de "Estou Além". A polémica em torno da sua doença torna-se tema de destaque, não por preocupação com o cantor, mas por constitur para muitos o primeiro caso conhecido de SIDA em Portugal.
Broncopneumonia bilateral extensa seria a causa apontada para a morte do cantor, mas os cuidados extremos durante a autópsia e a selagem do caixão "por constituir perigo para a saúde pública" agravariam as suspeitas.
Ao velório na Basílica da Estrela acorreriam Amália, Maria da Fé, Lena D`Àgua e elementos dos Heróis do Mar. Mas a maioria seriam os jovens de liceu, as velhinhas, os colegas de profissão - barbeiros - que vinham assim despedir-se do seu idolo.
Os restos mortais de Variações seriam depois transportados no dia 15 para o cemitério de Amares, onde se encontra sepultado.
As declarações pouco esclarecedoras dos médicos e os desmentidos mantidos até hoje pela família acabariam por encerrar a polémica.
Em 1998, a SIDA é já olhada a uma outra luz já não é o "castigo para homossexuais" de 1984. Se António Variações foi a sua primeira vítima declarada ou não é o que menos interessa.
Interessa sim lembrar a descriminação e críticas de que foi alvo nos últimos tempos de vida..
Recordando Variações
Queria ficar na história da música popular e conseguiu. Muitas foram e continuam a ser as homenagens prestadas a António Variações. Eis algumas das mais relevantes, que contribuem em larga escala, treze anos após a morte do cantor, para manter bem viva a sua obra.
1987 - Em Abril, os Delfins incluem no seu álbum de estreia "Libertação", uma versão de "Canção De Engate". É a primeira versão gravada de um original de Variações.
1988 - A EMI - Valentim de Carvalho reedita o máxi - single "Estou Além". "Anjo Da Guarda" é editado pela primeira vez em CD.
1989 - No quinto aniversário da morte de António Variações, a EMI - Valentim de Carvalho reedita, numa edição especial, a sua discografia. Em Julho, "Dar E Receber" é editado em CD. Em Novembro, Lena D`Água edita "Tu Aqui", álbum que inclui nove temas inéditos de Variações.
1993 - Para assinalar os nove anos passados sobre a morte de Variações, Júlio Isidro dedica-lhe uma das emissões do seu programa televisivo "Sons do Sol".
1994 - A EMI - Valentim de Carvalho reúne dez artistas em torno de dez temas de Variações e edita o tributo "Variaçoes - As Canções De António"
1995 - As Amarguinhas incluem no seu CD de estreia uma versão de "Estou Além".
1996 - O projecto MDA inclui no seu álbum de estreia uma versão de "Estou Além" e outra de "Dar E Receber". No dia 1 de Dezembro, a RTP2 transmite um documentário sobre a vida e obra de Variações, da autoria de Maria João Rocha.
1997 - A EMI - Valentim de Carvalho reedita em CD - single " O Corpo É Que Paga " e a colectânea "O Melhor De António Variações".
Os amigos de Variações
A pretensão de reunir neste projecto as palavras tanto dos admiradores e amigos de Variações como as dos seus críticos foi em parte gorada na medida em que apesar dos contactos estabelecidos e da investigação na Imprensa, não foi possível obter dos últimos,um único depoimento.
Restaram assim alguns excertos de entrevistas dadas à Imprensa por algumas figuras públicas que contactaram de perto com o cantor e também breves passagens de artigos que lhe foram dedicados postumamente.
Pedro Ayres de Magalhães A única coisa que eu posso dizer, neste momento, é que a morte de António Variações é para mim, uma grande perda e um grande desgosto como amigo, e para a música popular representa o desaparecimento de uma das suas ´ pontas de lança ´. O António foi a única pessoa neste país que conseguiu ser popular sem deixar de se mostrar. Ele sempre falou de si. Quem ficou a perder foi, sobretudo, o país. - Pedro Ayres Magalhães à revista TV Top nº 173, no dia do funeral do cantor.
Vitor Rua Trabalhar com o Variações era simultaneamnete simples, entusiasmante e divertido. Quando entrava no estúdio para cantar, levava consigo o lado extraordinário de performer que tanto o caracterizou e fazia-o como se estivesse a actuar para um estádio cheio de gente. Para uma das suas músicas a única coisa que ele me disse foi que queria sentir a terra a tremer, como se a partitura fosse: toque uma música que faça tremer a terra. E era com indicações deste género que ele ia, a seu modo, dirigindo o trabalho. - Vitor Rua ao jornal Público de 11 de Janeiro de 1985.
António Macedo A última vez que o vi não quis receber nada e deu-me um aperto de mão. Sentou-se á minha frente e almoçou silenciosamente em torno de uma garrafa de branco. Estava rodeado de companheiros, mas nada tinha para lhes dizer, nada tinha para ouvir. - Macedo, António, " Variações em torno do António " in revista Mais, Lisboa, nº 115, 22 de Junho de 1984, p.p. 53 - 55.
Manuela Gonzaga Odeio ter que escrever tudo isto sobre ti, António Variações, porque é uma prosa de adeus, e era demasiado cedo e tinhas tanta coisa para nos dar... - Gonzaga, Manuela, " António Variações - A morte é uma viagem com os seus perigos " in revista TV Top, Lisboa, nº 173, 22 de Junho de 1984, p. 34.