José
Afonso
José Afonso foi um cantor que influenciou para sempre a música e a cultura portuguesas. Compositor multifacetado, percorreu no seu repertório diversas áreas musicais, das baladas de Coimbra à música tradicional, tendo também feito música para teatro.
Tornou-se, pois, referência incontornável a quem quer estudar a música portuguesa dos últimos quarenta anos. E dez anos depois da sua morte, a semente da sua obra musical ainda continua a dar frutos e a influenciar as novas gerações.
José Afonso, ou "Zeca", é admirado não só pela sua música mas também pela sua personalidade e forma de estar na vida. "Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia-a-dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for".
Um homem solidário, movido por causas e ideais que lhe pareciam justos. Um ser humano que vivia movido por uma utopia e que nunca parou muito tempo no mesmo lugar. Zeca Afonso era um andarilho.
José Afonso - Cronologia
1929
Nasce em Aveiro, no dia 2 de Agosto, José Manuel Cerqueira
Afonso dos Santos.
1933
Com três anos e meio é enviado para Angola, onde o pai é
procurador da República.
1936
Regressa a Aveiro, para casa de umas tias. "Aos sete anos
volto para a Europa, para Aveiro, é a escola primária. Foi
violentamente traumatizante: o professor pendurava-me pelas
orelhas porque eu era distraído".
1937
"Aos oito anos regresso a África. Agora é Moçambique,
não é Angola. Pouco tempo ali estou mas é de novo o paraíso.
Somos eu, o meu irmão, a minha irmã... Também nesse tempo
vamos com a família à África do Sul e vemos as feras em
liberdade... Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra."
1938
Vai para Belmonte, para casa de um tio que era Presidente da
Câmara. "Uma terra horrível. Um período fechado. Privado
de contactos. Eu não podia sequer dar-me com os meninos da vila.
Fiz ali a 4ª classe".
1940
Entra para o Liceu D. João III, em Coimbra. Vai morar
para casa de uma tia. " O ambiente era muito conservador:
mulheres de escapulário ao pescoço Proibições...".
1949
Matricula-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na
Faculdade de Letras de Coimbra.
1953
Grava os seus dois primeiros discos de fado de Coimbra, em 78
rotações. Nasce o seu primeiro filho José Manuel, fruto do seu
casamento com Maria Amália de Oliveira. Até 1955 cumpre em
Mafra o serviço militar.
1955
Nasce a segunda filha, Helena.
Para sustentar a família inicia a actividade de professor, dando aulas em vários lugares. Lecciona em Mangualde, depois Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro.
Até 1964, manteve sempre ligação à vida académica coimbrã. Participa em várias digressões da Tuna e do Orfeão Académico. Continua na faculdade como estudante voluntário.
1960
É lançado o EP "Baladas de Outono"
1961
No Algarve conhece Zélia, a sua segunda mulher e com quem viria
a ter dois filhos, Joana e Pedro
1962
Edita "O Menino D'Oiro", acompanhado à viola por Rui
Pato.
1963
Grava "Os Vampiros".
Termina o curso com uma tese sobre Jean- Paul Sartre , "Implicações substancialistas na filosofia sartriana", na qual obtém onze valores.
1964
Vai para Moçambique, na companhia de Zélia. Dá aulas em Lourenço
Marques e na Beira.
1967
Regressa a Portugal. É colocado em Setúbal. Posteriormente o
regime vai impedi-lo de dar aulas.
1968
Grava para a Orfeu o LP "Cantares do Andarilho".
1969
Lança "Contos Velhos Novos Rumos".
1970
Grava em Londres "Traz outro amigo também".
1971
Num dos estúdios mais caros da Europa, os de Herouville, em
Paris, é feita a gravação de "Cantigas do Maio".
Cabe a José Mário Branco, exilado em França, os arranjos e a
direcção musical do disco.
1972
Madrid é o local escolhido para gravar "Eu vou ser como a
toupeira".
1973
"Venham Mais Cinco" é gravado em Paris, de novo sob a
direcção de José Mário Branco. Foi o último disco de José
Afonso antes da revolução de Abril.
Está vinte dias preso em Caxias.
1974
No dia 29 de Março José Afonso participa no I Encontro da Canção
Portuguesa, em Lisboa.
No dia 25 de Abril é derrubado o regime fascista de Marcelo Caetano, pelo Movimento das Forças Armadas. Grândola Vila Morena , do disco "Cantigas do Maio", é escolhida como senha para o arranque do movimento, passando na madrugada de 25 na Rádio Renascença.
Sai o disco "Coro dos Tribunais", com arranjos de Fausto.
1975
Lança o single "Viva o Poder Popular", em colaboração
com a LUAR.
1976
Grava o LP "Com as minhas Tamanquinhas". Segundo José
Niza, este disco representa "uma espécie de repositório e
balanço das experiências vividas e recentes".
Apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência.
1978
É o ano de "Enquanto há força", novamente dirigido
por Fausto. Este LP conta com a participação de numerosos músicos
e cantores portugueses.
1979
Vai viver para Azeitão.
Sai "Fura, Fura", com arranjos de José Afonso e Júlio Pereira. Deste disco, oito faixas são temas para as peças de teatro "José do Telhado" (A Barraca, 1978) e "Guerras do Alecrim e Manjerona" (A Comuna, 1979)
1981
Grava o último disco para a Orfeu. Chama-se "Fados de
Coimbra e outras canções". Dedica-o a Edmundo Bettencourt
e a seu pai.
1983
A 29 de Janeiro dá um espectáculo no Coliseu dos Recreios, para
uma sala completamente cheia. Do espectáculo resultará o disco
"José Afonso ao vivo no Coliseu".
Grava "Como se Fora seu Filho".
Recusa a Ordem da Liberdade.
1985
Sai o seu último álbum, "Galinhas do Mato". José
Afonso só canta algumas faixas, devido ao seu estado de saúde
estar prejudicado pela doença de que sofre, uma esclerose
lateral amiotrófica.
1987
José Afonso morre na madrugada do dia 23 de Fevereiro, no
Hospital de Setúbal.
Compositor
Com uma carreira de mais de trinta anos e com 28 discos originais gravados, José Afonso deu um importante contributo para a renovação da música portuguesa, em vários géneros, como o fado de Coimbra, a música popular ou a chamada música de intervenção.
O início da sua obra musical é marcado por um contacto forte com o fado coimbrão, já que foi em Coimbra que frequentou o liceu e a faculdade. Porém a José Afonso não agradavam muitas das tradições e mitos ligados ao fado. Começou então um trabalho que viria a contribuir decisivamente para a renovação do Fado de Coimbra, quer a nível musical, quer a nível dos temas abordados nos poemas.
A música popular e tradicional foi outro elemento sempre presente nas suas composições, dando uma frescura e uma originalidade pouco existente até aí. José Afonso buscava inspiração em cantigas do folclore tradicional, que tinham um ritmo característico e retratavam um universo muito próprio.
José Afonso contribuiu também para a divulgação da poesia portuguesa, cantando poemas de autores como Luís de Camões ou Fernando Pessoa.
Uma das facetas que mais caracterizam José Afonso, e um dos motivos por que se tornou mais conhecido, foi a de cantor de intervenção, com tudo o que esse "rótulo" tem de positivo e negativo.
Como pessoa, sempre teve uma postura muito interventiva e alerta, que se reflectia na sua música. Logo desde o início da sua carreira usou as suas canções como uma forma de expressar o descontentamento com a situação do país e com a ditadura do Estado Novo.